Mostra de CARYBÉ em São Paulo pela Paulo Darzé Galeria dia 31 de agosto.
Uma Bahia carregada na cabeça, por praças e ladeiras, nas quituteiras apregoando o dendê ou os doces em seus balaios; o mercado popular através da imagem de um matadouro, no convívio entre magarefes e fregueses; o jogo de capoeira; a casa religiosa em variados aspectos, momentos e instrumentos do candomblé.
Dando amplidão aos seus temas segue além-litoral, a cidade da Bahia, como se nomeava antigamente a Salvador de hoje, para o interior, aonde suas imagens chegam a um sertão com bois e vaqueiros, e a Chapada Diamantina nos homens buscando o sonho no trabalho em suas bateias na lavra por uma pepita de ouro.
Estamos diante de trabalhos de Carybé, óleos sobre tela, incluindo dois painéis em cerâmica, dimensões variadas, que podem ser nomeadas como cenas da vida da Bahia, imagens de movimento e de cor que mostram o lúdico, o lírico e o dramático, o trabalho, a fé, a diversão, uma Bahia através de suas três raças, branca, negra e índia, sua mestiçagem, nestas obras que a Paulo Darzé Galeria apresenta na Semana de Arte, 31 de agosto/3 de setembro de 2018, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, em São Paulo.
São muitas as Bahias que Carybé transita em suas pinturas, murais, desenhos, esculturas, gravuras, painéis, ilustrações, o que o fazia declarar que com sua arte realizava uma forma de fixar seu caminho, e que para isto estava sempre presente o seu gosto por gente, por bichos, pela terra. Cada coisa tem uma linguagem própria, através da qual pode ser expressa. O mural, a pintura a óleo, ou têmpera vinil, tudo são formas para fixar este caminho por este mundo.
É este conhecimento da Bahia e o amor que possuía por ela, fazendo dela seu lugar no mundo que o fizeram ter com sua obra o que dele disse Jorge Amado no livro O capeta Carybé: uma recriação da Bahia em sua verdade completa: a paisagem e o povo. As emoções, os sentimentos, os hábitos, a dor, a tristeza, a alegria, a miséria, a luta, a esperança, o drama, a solidão, e a festa, a mistura imensa e decisiva. Com isto levou a Bahia mundo afora, reproduzindo a beleza e o gênio pode vê-lo nos quatros cantos do universo.
Carybé nasceu em Lanus, um subúrbio de Buenos Aires, Argentina, em 9 de fevereiro de 1911. Considerando 1950 como o ponto definitivo de sua vida na Bahia, passa a viver, trabalhar, e com outros artistas realizar uma renovação na arte na Bahia. Naturaliza-se baiano em 1957, e legalmente daí por diante um cidadão brasileiro, por livre escolha. E é desta Bahia que cria a sua obra, até falecer em 2 de outubro de 1997.
Suas mostras iniciam em1940, Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires; ganha o 1º prêmio do ‘Salon de Grabadores’, 1943; Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro, 1945; Pan American Unior, Washington DC, Estados Unidos, 1948. A lista é muito grande e por vários países. Vejamos alguns outros dados: 1º prêmio em desenho na III Bienal de São Paulo, 1955; participação na XXVII Bienal de Veneza, 1956; I Bienal de Artes Plásticas da Bahia, 1966; Sala especial na XI Bienal de São Paulo; medalha de ouro na I Exposição de Belas Artes Brasil-Japão, 1973. E são muitas as obras espalhadas pelo mundo. Murais no Aeroporto Kennedy, New York, Estados Unidos; Aeroporto de Miami; Aeroporto Tom Jobim-Galeão, Rio de Janeiro, Aeroporto Luiz Eduardo Magalhães, Salvador, Bahia, cidade onde suas obras se espalham por edifícios e monumentos, assim como São Paulo, ressalve-se o mural no Memorial da América Latina; ou Rio de Janeiro, Londres ou Buenos Aires, e o painel para a Embaixada Brasileira em Lagos, na Nigéria.
Seus trabalhos integram coleções dos Museus de Arte Moderna de New York, São Paulo, Bahia, Arte Contemporânea de Lisboa, Rade de Hamburgo/Alemanha, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa/Portugal. Em 1992 teve o quadro São Sebastião adquirido pelo Museu Vaticano. Além de autor de álbuns preciosíssimos, como As sete portas da Bahia, Iconografia dos deuses Africanos no Candomblé da Bahia, Sete Lendas Africanas da Bahia, ilustrou obras de autores magistrais da literatura como Jorge Amado, Gabriel Garcia Marques, Rubem Braga, e Macunaíma de Mario de Andrade. Em 1989, com uma mostra individual no Museu de Arte de São Paulo, MASP, lançou o livro Carybé, abrangendo toda a sua obra até aquele momento, com edição e fotografias de Bruno Furrer.
Pintor, desenhista, gravador, escultor, muralista, ilustrador, cenógrafo, figurinista, Carybé é a arte brasileira em uma de suas maiores expressões, ao retratar a vivência do povo baiano através de uma variedade de temas e cenas do cotidiano, principalmente revelando sua gente, uma Bahia popular advinda da vivência profunda que teve com a cidade e o seu povo, retribuído ao ser agraciado em 1963 com o título de Cidadão de Salvador; em 1976, Cavaleiro Grão-Mestre da Ordem do Mérito da Bahia; em 1982, Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia, e a todos estes sobressaindo o de Obá do Candomblé Axé-Opô Afonjá, em Salvador, Bahia.

